“Sustentar isso que está aí hoje? Não adianta”. Essa fala de Luciana Annunziata nos dá uma boa ideia sobre como a Casa Causa, onde é uma das sócias e fundadoras, vê o padrão atual dos negócios e o nosso modo de vida. Foi a partir desse desejo de mudança e de uma inquietação pessoal que ela e Flávia Cunha, sua sócia, fundaram a empresa. Para elas falar em sustentabilidade já não é o suficiente.

Isso porque, como ela nos explica no papo a seguir, temos o desafio e a responsabilidade de reverter inúmeros processos nocivos gerados pela humanidade, sendo o lixo um dos impactos mais graves que geramos e o principal foco de atuação da Casa Causa. 

E aí, vamos conhecer um pouco mais desse trabalho incrível?

Luciana, você pode começar nos contando quais são os principais serviços oferecidos pela Casa Causa?

Nós desenvolvemos projetos para empresas que querem causar em busca do lixo zero e da economia circular. Nosso trabalho vai desde uma palestra, até um trabalho estratégico ou de sensibilização. O que nos guia é fazer ciclos curtos e sucessivos de entendimento, engajamento, prática e mensuração que mostram que é possível trabalhar com esses temas.

Luciana e Flávia, fundadoras da Casa Causa, durante o Encontro Lixo Zero
Luciana e Flávia, fundadoras da Casa Causa, durante o Encontro Lixo Zero

Hoje também damos atenção especial a dois assuntos: design de eventos regenerativos e combate ao desperdício no varejo de alimentos, por termos identificado que são duas situações onde a geração e a má gestão de resíduos são especialmente críticas.

Também fazemos parcerias de conteúdo com marcas que estão no mesmo caminho que nós, além de sermos embaixadoras do Instituto Lixo Zero Brasil em São Paulo.

Certo. Agora que já estamos “apresentados” à empresa, você pode nos contar um pouco da sua história pessoal, do que levou à criação da Casa Causa e o seu papel lá dentro hoje?

Hoje sou sócia diretora da empresa e atuo com marketing e conteúdo, além de apoiar a concepção dos projetos.

Quanto à minha história, sempre tive uma carreira consultiva, na área de inovação e desenvolvimento de pessoas, trabalhando para empresas de grande porte e multinacionais. Foi através desse tema, tentando entender que “novo” era esse atrás do qual todos estávamos, que a sustentabilidade despontou na minha vida. Havia uma insatisfação com o trabalho em projetos que visavam somente o lucro e o aumento de vendas, então fui abandonando isso e focando no que acreditava que faria realmente diferença no mundo.

Então a empresa nasceu mesmo da inquietação das sócias, minha e da Flávia, em relação ao impacto do trabalho que a gente já fazia em inovação e sustentabilidade para empresas de grande porte e do desejo de criar algo autoral onde fosse possível verificar realmente o impacto. Foi uma coisa de propósito mesmo, e um grande desejo de mudança. Assim, em 2015, entramos com a Casa Causa na incubadora Social Good Brasil e a partir dali fomos colocando esse sonho em pé.

Falando em impacto real, pode nos falar um pouco sobre os resultados dos trabalhos de vocês?

Nosso trabalho passa por fazer acontecer mudanças práticas e contar boas histórias sobre resíduos e economia circular. Nossa missão é mostrar que é possível mudar uma situação que para muitos ou é invisível ou é irreversível, por isso o chamamento constante #boracausar!

No Encontro e na Semana Lixo Zero, apoiamos as ações do ILZB em todo o país, e em São Paulo, especialmente, atraímos um público muito expressivo. Ano passado, e mesmo este ano com a pandemia, o Encontro Lixo Zero atraiu mais de mil pessoas para conversas sobre resíduos; pessoas que vieram ouvir sobre o problema mas também escutar sobre soluções, gente que quer mudar hábitos ou quer mudar a gestão dos resíduos em seus negócios, além de empreendedores que têm soluções para mostrar e que vamos incluindo em nossa rede e em nossos projetos. Essa mobilização toda com o tema dos resíduos e do lixo seria inimaginável há cinco ou dez anos atrás. Esse era um tema pouco visível, porque o lixo a gente descarta e afasta, parece que ele some. Só que não. Sabemos que tivemos um papel em colocar esse tema em foco e ampliar a visão sobre ele, inclusive a nossa visão!

Roda de conversa durante o Encontro Lixo Zero realizado em 2019

Mais de 80 instituições já contribuíram com nossas ações e a mobilização de voluntários é grande. Só a Semana Lixo Zero ano passado contou com 36 pessoas que doaram 1170 horas do seu tempo para realizar as 106 atividades que aconteceram na nossa cidade. Com isso, conseguimos colocar o evento no calendário da prefeitura. Um avanço enorme.

No âmbito de projetos com clientes e parceiros, não temos dados numéricos, mas sabemos que já afetamos mais de 30 organizações e seus colaboradores, gerando impactos positivos no meio ambiente e também na vida dessas pessoas. É um momento de mudar a mentalidade para mudar a forma como tratamos os resíduos dentro dos negócios.

Nosso trabalho na internet também é feito com muito cuidado, sempre visando passar informação relevante de forma prática e simpática para nossos 11,3 mil seguidores. E vem muito mais por aí. Mais seguidores, nosso canal no youtube, que está ganhando corpo aos poucos e projetos especiais que também vão chacoalhar a cidade. Afinal, estamos aqui para causar!

Incrível… e com tudo isso, qual você diria que é o maior desafio de vocês, hoje?

É romper de vez a visão, especialmente nas empresas de que esse é um tema secundário, quase um efeito colateral necessário para a economia crescer e as pessoas consumirem mais, como se isso fosse garantir o bem estar de todos. Não vai, já não foi.

Hoje já falamos de regeneração na Casa Causa, pois entendemos que a tarefa é maior do que sustentar (sustentar isso que está aí hoje? não adianta). Precisamos reverter inúmeros processos nocivos gerados pela humanidade e sabemos que o lixo é um dos impactos mais graves que geramos. Ele é um sintoma da insustentabilidade do nosso modo de vida e dos nossos paradigmas de negócios.

Vemos que sim, existe um desafio de conscientização dos cidadãos e também uma dificuldade no Brasil de ter uma atuação política no sentido amplo, de reivindicar, gritar, fazer valer seus direitos e necessidades. Mas se fosse para colocar um único desafio, eu colocaria a mentalidade empresarial.

Não há empresas de sucesso em sociedades que fracassam.

R.K. Pachauri

Há uma frase de que gostamos muito, do cientista indiano R. K. Pachauri, ex-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, que diz o seguinte: não há empresas de sucesso em sociedades que fracassam. A gente concorda radicalmente com isso. É preciso entender que a interdependência na nossa sociedade é um fundamento ecológico, ético e também econômico. A meta lixo zero vai nessa direção: você precisa fazer circular os 90% de materiais usados na nossa produção que têm condições de ser reaproveitados, honrando a extração e a manufatura, o design, tudo o que já aconteceu com aquele recurso. Quando eu, como empresário, escolho um design circular, que respeita o meio ambiente, eu contribuo para algo que também é meu futuro; quando eu decido por manter uma embalagem nociva ao meio ambiente na minha linha de produtos, eu perco. Posso não perder no curto prazo, mas perco. E essa mudança de horizonte, de honrar o nosso passado (o que herdamos das gerações anteriores e do meio ambiente) e o futuro (o tal do longo prazo, o que vamos oferecer para nossos filhos) essa é a mudança mais radical. Porque a visão do lucro a todo custo está fracassada. Só não percebe quem está alienado

Que tipo de futuro você acredita que essa mudança de horizonte pode trazer? Qual é a visão de futuro de vocês?

Um futuro lindo, limpo, circular, ético e igualitário, onde todos os seres vivam integrados e respeitando o meio ambiente, honrando e desfrutando da interdependência que é a base da nossa existência.

Mas se fosse para falar de algo específico que queremos no futuro, para nós é muito claro que o tema dos resíduos desnuda a questão da desigualdade social no Brasil e a situação hoje de catadores e cooperativas é algo que precisa ser melhorado, e muito! Deveria ser inimaginável que um designer ou um arquiteto, um engenheiro, um administrador ou um artista passe pela faculdade sem visitar uma cooperativa e entender o fim do ciclo de vida dos produtos. As cooperativas têm um conhecimento enorme e precisam se profissionalizar, oferecer serviços melhores e receber resíduos melhores; porque se fosse a sua irmã, sua tia ou seu filho que estivesse lá cuidando do seu resíduo no fim do ciclo de vida, tentando dar vida nova ao que você deixou para trás, tenho certeza de que você cuidaria desses materiais de outra forma e minimizaria o que joga no lixo e vai para o aterro, perdendo todo o valor. Hoje, no Brasil, a gente vive a situação absurda de que pessoas rejeitadas socialmente cuidam dos nossos rejeitos. Isso precisa mudar.

Para a gente fechar, a partir do que falamos até aqui, é possível notar a importância da colaboração para o trabalho de vocês. Esse é também um dos nossos valores, inclusive um dos motivos de termos criado esse espaço, Futuros Coletivos. Pode nos falar sobre como vocês veem que a colaboração pode ajudar  seu propósito/missão?

Olha, no Brasil, o tema da cooperação está até na lei. A PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos), aprovada em 2010 depois de 21 anos de tramitação, prevê a responsabilidade compartilhada entre produtores, indústria, distribuidores e consumidores pela destinação correta e o aproveitamento máximo dos resíduos. Sem cooperação nada acontece e no nosso país, nada vai acontecer sem cobrança ou pressão dos consumidores.

No nosso trabalho, a cooperação é uma base importantíssima. Desde 2017, quando mergulhamos de vez no tema dos resíduos, viemos mapeando soluções e oportunidades para promover projetos e contextos em que esse tema tão complexo possa ser tratado. Hoje, quando vemos um projeto, um problema ou uma oportunidade, procuramos mobilizar todo o ecossistema que temos ao nosso alcance, porque os resíduos têm sim solução, mas ela passa por revisões profundas, desde o design de produtos até a destinação pelo consumidor final. Todos somos responsáveis.

Na prática, contamos também com a rede e o trabalho incrível do Comitê Lixo Zero da ABRAPS (Associação Brasileira de Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável), uma rede multidisciplinar de profissionais que buscam o impacto positivo em resíduos, além da rede nacional do ILZB (Instituto Lixo Zero Brasil).

O Brasil gera 78,3 milhões de toneladas por ano e só 3% desse montante é reciclado

Tratar dos resíduos é uma tarefa gigante que precisamos encarar juntos, afinal, o Brasil gera 78,3 milhões de toneladas por ano e só 3% desse montante é reciclado. Estamos atrasados e precisamos agir juntos, começando já, da melhor maneira que podemos a partir do lugar em que estamos.


Depois desse papo, não consigo terminar esse post se não de outro jeito: e aí, #boracausar juntos para encarar esse desafio enorme?

Luciana, muito obrigado pela entrevista. Uma aula sobre o assunto, sem dúvida!