Por que as pequenas empresas devem se preocupar com seu impacto social e ambiental? Seria de se supor que uma agência de comunicações, um fabricante de alimentos ou uma empresa iniciante de tecnologia tenha pouco impacto negativo em comparação com os grandes participantes corporativos. Somente quando percebemos que as pequenas e médias empresas (PMEs) empregam 60-70% da força de trabalho* e representam 50% do PIB* globalmente, é que entendemos sua contribuição crucial para a nossa economia. Não é surpreendente, então, que esse poder econômico venha à custa do meio ambiente e do ar que respiramos, já que as PMEs também são responsáveis por 67% da poluição global*. Pensando em um futuro não muito distante, com mais um bilhão de pessoas no planeta e a classe média chegando a 4,9 bilhões até 2030**, torna-se óbvio que o crescimento econômico baseado em modelos de negócios lineares (extrair, produzir, fornecer-resíduos) logo nos deixará em uma situação insustentável. É hora, agora mais do que nunca, de um novo padrão de modelos de negócio.

Não há um "Planeta B". Precisamos pensar um novo padrão de modelos de negócio.
ão tFoto por Markus Spiske não Unsplash

A construção de uma empresa responsável ou com propósito não é algo que aprendemos nas escolas de administração e nem é facilmente encontrado no mundo corporativo e das start-ups, onde a competição feroz define um ritmo louco para as empresas sobreviverem, muitas vezes pela exploração do planeta e da sociedade. Quando se trata de planejamento de negócios, o Business Model Canvas é frequentemente citado como ponto de referência devido à sua maneira brilhante de englobar todos os elementos importantes de uma estratégia de negócios tradicional. Sem dúvida, uma ótima ferramenta para estruturar o desenvolvimento de uma empresa que eu, inclusive, também utilizo com frequência em meus projetos de consultoria, mas que sempre me deixa insatisfeita quanto a um aspecto: a visão sistêmica de como o produto ou serviço que estamos lançando afetaria o ecossistema mais amplo.

Agora que entendemos o problema, vamos falar sobre a solução

Imaginando se as pequenas empresas mudariam de mentalidade tendo em mãos uma ferramenta que considera o sistema como um todo no desenvolvimento de um negócio, juntei forças com o Luiz Beltrami e criei o 4D Sustainability Canvas. O Canvas e toda a metodologia de suporte que ajuda a incorporar a sustentabilidade na estratégia do negócio foram desenvolvidos seguindo a estrutura de inovação social do Amani Institute.

Os 8 passos da metodologia de inovação social do Amani Institute

Como resultado de 4 meses de uma investigação completa, incluindo entrevistas e pesquisas, identificamos 3 principais barreiras que impedem as PME de pensar e agir sobre seu impacto negativo: falta de conhecimento, tempo e recursos. Muitos empreendedores e empreendedoras, principalmente quem está nos estágios iniciais do negócio, provavelmente podem se identificar com a afirmação de que o foco é a sobrevivência; a sustentabilidade é considerada um recurso ‘bom de se ter’ a ser adotado assim que a empresa for dimensionada. Porém, a transição em um estágio posterior resulta em um gasto maior e uma tarefa mais complexa, pois implica uma transformação cultural que não acontece da noite para o dia.

Para facilitar a mudança em menor escala, construímos uma estrutura que coloca a iniciativa e o controle de conduzir um negócio responsável nas mãos dos colaboradores. O 4D Sustainability Canvas ajuda a organização a se familiarizar com o conceito de negócio sustentável e identificar as áreas onde pode agir para reduzir o impacto negativo e aumentar o impacto positivo, independentemente do nível de especialização. Não só traz consciência, mas abre o potencial de criação de novas oportunidades de negócios que podem levar à vantagem competitiva.

The 4D Sustainability Canvas

O Canvas é o centro da metodologia. No entanto, recomendamos que você siga as 3 etapas abaixo para chegar ao resultado desejado:

  1. Com o 4D Sustainability Canvas, mapeie o impacto do seu negócio nas 4 áreas: Colaboradores, Comunidade, Governança e Planeta 
  2. Explore os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU usando os Cartões ODS que fornecem ideias práticas sobre como vincular os objetivos ao seu negócio
  3. Defina seus objetivos em resposta ao impacto mapeado para todas as 4 dimensões de sustentabilidade (4D)

Por que esperamos que esse processo seja bem-sucedido?

Em primeiro lugar, porque pegamos as diferentes ferramentas de sustentabilidade, como SDG Compass, Avaliação do Ciclo de Vida, Avaliação de Impacto do Sistema B, Matriz de Materialidade, entre outras, e as combinamos em uma ferramenta prática que qualquer pessoa pode aplicar seguindo nosso guia.

Em segundo lugar, o princípio desta metodologia baseia-se no poder dos pequenos hábitos, que propõe que a adoção de pequenos hábitos todos os dias leva à mudança de comportamento. Assim, encorajamos as empresas a iniciar a jornada com pequenos passos, neste caso começando com alguns objetivos de sustentabilidade. A ideia é incorporar o pensamento sistêmico à cultura desde o início, para que não haja necessidade de uma transformação traumática em um estágio posterior.

Por último, mas não menos importante, aproveitamos o poder da colaboração, tendo toda a equipe participando da descoberta do ecossistema mais amplo da empresa e do impacto, gerando discussões interessantes e promovendo a propriedade das tarefas, o que leva a um senso de responsabilidade compartilhada.

A primeira implementação da metodologia na La Gracia, uma consultoria de comunicação do Brasil, com 25 colaboradores na época, corrobora nossa hipótese. Fechamos o workshop de 3 horas com 8 metas de sustentabilidade, cada uma delas atribuída a diferentes membros da equipe que saíram da sala com impressões como:

Pude entender de forma empírica e simples como podemos ser mais sustentáveis e gerar impactos mais positivos em nossa cadeia de valor

e…

Percebi que quando falamos em sustentabilidade também devemos pensar em cidadania, respeito e inclusão.

Seguindo adiante para ajudar a construir um novo padrão de modelos de negócio

Isso foi o suficiente para nos encorajar a continuar a aplicação da ferramenta em mais organizações como o CLP (ONG brasileira de formação de lideranças públicas) e Instituto Tiê (consultoria com foco em comunicação não violenta), e ainda abrir espaço para levar esse modelo para empreendimentos ainda no estágio de ideação, levantando a bandeira sobre a importância de se pensar a geração de impacto positivo desde o início, como fizemos recentemente junto a jovens empreendedores sociais participantes do programa de incubação Social Impact Award.

Nossas ferramentas estão disponíveis online, com acesso gratuito e um guia completo para sua aplicação. Desde o nosso piloto, há cerca de um ano, incorporamos feedback dos usuários, publicamos uma versão atualizada e traduzimos o kit de ferramentas para mais um idioma (espanhol). Acreditamos no poder do coletivo, continuamos a incentivar os proprietários de negócios, funcionários e consultores a aplicar e compartilhar a metodologia, deixar comentários e fazer parte de um processo de inovação aberta para que possamos maximizar o impacto positivo das PME e estabelecer um novo padrão de modelos de negócio.

* World Trade Report 2016 Leveling the Trading Field for SMEs

** http://oecdobserver.org/news/fullstory.php/aid/3681/An_emerging_middle_class.html